5 de janeiro de 2018

JIDDU KRISHNAMURTI

Um dos personagens mais impressionantes no mundo espiritualista, o escritor e conferencista Jiddu Krishnamurti, destacado membro da Sociedade Teosófica e figura central da Ordem da Estrela do Oriente, promoveu a urgência de uma revolução espiritual individual, dando ênfase à impossibilidade de tal revolução ser realizada por agentes externos, tal como as formas religiosas, as opções políticas e as mudanças sociais.
Krishnamurti nasceu no ano de 1895, uma época em que a Índia era colônia britânica. Ainda em sua adolescência, seu pai, oficial aposentado da administração imperial, levou a família para morar em Adyar, próximo à sede da Sociedade Teosófica. Seu potencial filosófico e espiritual foi descoberto pelo teósofo clarividente Charles Webster Leadbeater, o que o levou a ser criado sob a tutela deste Mestre e de Annie Besant.
Através de suas faculdades clarividentes, Leadbeater foi capaz de perceber que a aura do jovem Krishnamurti não possuía qualquer traço de egoísmo, o que o fez declarar que o rapaz seria um grande orador e professor espiritual. Krishnamurti foi acolhido pelas lideranças da Sociedade Teosófica, e passou a ser preparado para servir como veículo para o futuro Instrutor do Mundo.
Logo, o adolescente de 14 anos foi levado à Europa para completar sua educação. Ali enfrentou alguns problemas com o cumprimento das tarefas escolares. Mesmo assim, dentro de um período de seis meses, foi capaz de ler e escrever em inglês com grande competência. Estes fatos apenas atestam o contraste entre sua inteligência livre e as estruturas mentais rígidas da educação formal.
Com o objetivo de preparar a humanidade para a vinda do Instrutor do Mundo, uma nova organização chamada Ordem da Estrela do Oriente foi criada em 1911 pelas lideranças da Sociedade Teosófica. Krishnamurti foi apontado como seu líder e passou a ser submetido à uma rigorosa disciplina física, intelectual e espiritual.
Após várias tentativas de ingresso no meio acadêmico, Krishnamurti finalmente desistiu da educação universitária. Sua preferência se dirigia ao aprendizado de línguas, à leitura de partes do Antigo Testamento e ao estudo de clássicos da literatura ocidental, em especial Friedrich Nietzsche. O enriquecimento cultural era acompanhado por lições sobre a espiritualidade e a teosofia, além de uma rotina exigente de práticas de meditação yoga.
Em 1922, Krishnamurti e seu irmão Nityananda foram viver em Ojai, Califórnia, Estados Unidos da América. Foi ali que Krishnamurti viveu eventos de extrema importância para sua vida espiritual. Pela primeira vez os dois irmãos estavam livres da vigilância de seus tutores, e passaram seu tempo vivendo em meio à natureza, convivendo com amigos e praticando a contemplação espiritual.
Durante este período Krishnamurti conheceu Rosalind Williams, quem viria a ser importante colaboradora de seu trabalho. Também em Ojai, viveu uma experiência espiritual transformadora, mais tarde conhecida como O Processo. Ao longo de um período de três dias sentiu dores por todo o corpo e passou por eventuais desmaios. No entanto, seu despertar interior foi intensificado de tal maneira que a partir de então Krishnamurti jamais foi o mesmo.
As transformações íntimas e espirituais experimentadas por Krishnamurti o levaram a um distanciamento da velha forma como entregava seus ensinamentos. Pouco a pouco substituiu a linguagem teosófica por uma nova terminologia, novos conceitos e novas ideias que, se em nada contradiziam a Doutrina Secreta, apresentavam aos indivíduos uma proposta de revolução íntima, independente de organizações espiritualistas e doutrinas religiosas.
O ponto de convergência destas mudanças foi a dissolução da Ordem da Estrela do Oriente em 1929. Tal postura atraiu diversas e severas críticas à Krishnamurti por parte inclusive daqueles que costumavam acompanhá-lo. Mesmo assim, seguiu ainda por mais de cinco décadas divulgando os ensinamentos revolucionários cada vez mais refinados, que estimulavam os indivíduos a uma busca independente e comprometida pela realização íntima.

4 de janeiro de 2018

KRISHNAMURTI EXALTA JESUS CRISTO!

Esse é o último dia da série de entrevistas que o escritor e jornalista Rom Landau teve com  Jiddu Krishnamurti em Carmel. Nessas conversas, publicadas no livro " God is my Adventure", o pesquisador tenta esclarecer algumas dúvidas que sempre pairaram sobre a figura e história de J.K. . Em termos de registros escritos, é uma referência rara e incomum  a Jesus demonstrando, assim, o grande respeito e admiração que K. nutria pelo mestre nazareno. Leia o final da entrevista e tire suas próprias conclusões.(Alsibar)

Na véspera de minha partida, quando chegamos ao nosso local favorito, sob os pinheiros do outeiro, senti que aquela era nossa última conversa. Comumente as despedidas trazem a meus lábios palavras que me sentiria acanhado de pronunciar em circunstâncias menos excepcionais. A presença de Krishnamurti, entretanto, excitou minhas faculdades emotivas sem fazer-me sentir como um tolo. "Krishnaji", disse pegando-lhe as mãos entre as minhas, "minha visita chega ao fim. Sou-lhe muito grato por estes maravilhosos dias. Entretanto, quero ainda falar-lhe sobre um assunto que já discutimos várias vezes."

"Que é? Não se sinta acanhado diga."

"Compreendo seu ponto de vista de que sua missão não é agir como um médico, não lhe sendo possível prescrever pílulas espirituais para as criaturas. Mas, ainda assim, diga-me: Como pretende você ajudá-las? Sei que deseja que todos vivam tão integralmente que se tornem verdadeiros e tão verdadeiramente que sejam capazes de se libertarem do espírito de posse, da inveja, da cobiça. Mas uma tal revolução interior exige força que só bem poucos possuem. Você o conseguiu, e encontra-se no topo de uma montanha na qual vive em estado de unidade com o mundo, o que significa em êxtase constante. Entretanto, você se esquece de que nós todos, milhões e milhões de seres, vivemos nas vastas planícies, ao pé da montanha. Poucos suportariam uma vida de êxtase contínuo. Ela os abrasaria; viver em permanente estado de percepção, coisa essencial, os destruiria. Compreendo que seja esse o alvo; compreendo que seja a única vida que valha ser vivida; mas não julgo que estejamos tão amadurecidos que possamos fazê-lo"

Krishnamurti chegou-se para bem perto de mim - como já fizera várias vezes antes - olhou profundamente em meus olhos e disse com sua voz melodiosa: "Você tem razão. Eles vivem nas planícies e eu vivo, como você disse, no alto da montanha; mas eu espero que aumente sempre o número de seres humanos capazes, de suportar o ar fresco do topo da montanha. Um homem infinitamente maior que qualquer um de nós teve que seguir seu caminho até chegar ao Gólgota, não importava se seus discípulos o podiam seguir ou não; não importava que sua mensagem fosse imediata ou tivesse de esperar por séculos. Como pode você esperar que eu tenha algo que ver com o que deve ser feito e como ser feito? Se alguém esteve no topo da montanha, já não pode voltar à planície. Pode apenas tentar fazer com que outros sintam a pureza do ar e gozem a vista infinita e se tornem uno com a beleza da vida ali".

Desta vez não havia tristeza na voz de Krishnamurti e, em seu olhos, percebia-se uma luz que era amor, compaixão, simpatia, que antes já me comovera várias vezes. Quando nos levantamos e subimos vagarosamente a colina que levava à sua casa, não havia nele o menor sinal de desânimo. O sol se deitava, e faixas de nuvens verdes e rosas se espalhavam por todo o céu. A noite desce rapidamente nessas regiões, e dentro de poucos minutos a luz desaparece.

Apertamo-nos as mãos e desci em direção à praia, como fizera diariamente desde que chegara a Carmel. Era natural que nesse último dia em que o visitava, toda a vida de Krishnamurti se desdobrasse diante de mim. Haverá outra vida nos tempos modernos que se compare à dele? Tem havido muitos Mestres e Instrutores, Ioguis e Lamas adorados por seus seguidores. Mas nenhum deles foi arrebatado de sua existência comum para ser ungido como o prometido Instrutor do Mundo. Nenhum deles foi aceito pelo Oriente e pelo Ocidente, pelo mais antigo continente e pelo mais novo, pelos cristãos, hindus, judeus e muçulmanos, por crentes e agnósticos.

Nem Ramakrishna, nem Vivekananda foram educados e criados para sua futura missão de Messias; nem Gandhi, Mrs. Baker Eddy, Steiner ou Mme. Blavatsky conheceram tão estranho destino. Nem nos registros dos místicos do Ocidente, nem nos livros dos ioguis e santos do Oriente encontramos a história de um "santo" que depois de vinte e cinco anos de preparação para um destino divino resolve tornar-se num ser humano comum, renunciando não apenas aos bens materiais, mas também a todas as suas pretensões religiosas. Estava quase escuro e as primeiras estrelas começavam a aparecer. A atenção não era dispersada por luz, cores e aspectos do dia. O misterioso exemplo do notável fado de Krishnamurti tornava-se mais claro, e comecei a compreender o que queria ele dizer quando me contara que até pouco antes a vida fora um sonho para ele, mal tendo consciência da existência externa em seu derredor. Não teriam sido os anos de preparação? Não teriam sido os anos durante os quais o homem Krishnamurti procurava encontrar-se a si mesmo, para substituir aquele primitivo ego através do qual a Sra. Besant e Charles Leadbeater, a teosofia e uma estranha credulidade agiram durante mais de vinte anos?

Efetivamente, não era única a história de Krishnamurti? O mestre que renuncia ao trono no momento do seu despertar, no instante em que dentro dele o Deus tem de ceder o lugar ao homem, e o homem pode começar a achar Deus dentro de si? Mesmo durante os anos em que seu espírito penava em sonhos, não estivera ele cheio de uma verdade que ainda hoje é tão misteriosa que não chegamos a compreendê-la?

(Do livro de Rom Landau “God is my Adventure”.
Tradução de Marina Brandão Machado)

Fonte: A CONSCIÊNCIA É A RESPOSTA

19 de abril de 2017

“A crise não está lá fora, a crise é interna, e não queremos encarar isso”: Krishnamurti



Acho que não há dúvidas que vivemos há algum tempo (mais) uma grande crise, política, econômica, social, coletiva, e, de novo, “queremos ordem no mundo, politicamente, religiosamente, economicamente, socialmente”, como retratou certa vez o célebre filósofo indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986) no registro desse curto vídeo abaixo, reproduzido do documentário “The Mind of J. Krishnamurti” — gravado muito antes de nossa crise atual (parece que sempre há crises). “Nas nossas relações uns com os outros, queremos ordem, queremos alguma paz, alguma compreensão“, prossegue ele, para logo em seguida confrontar esse desejo com a atenção à nossa crise “interna”, pessoal, individual, que, segundo ele, é a verdadeira crise: “A crise não está lá fora, a crise realmente é interna, e nós não estamos com vontade de resolver isso“.

Interna como?, podemos nos perguntar. As palavras que ele usa para definir interna são “psicologicamente” e “na consciência“. No vídeo ele afirma que “a consciência está uma confusão, em contradição”. A forma mais simples de entender isso talvez seja ver que o que se busca como ordem no mundo não está correspondendo à desordem que se vive internamente — desordem psicológica e desordem da consciência. Uma frase atribuída a Sigmund Freud tem sido compartilhada exaustivamente na Internet, onde ele pergunta: “Qual a sua responsabilidade nos problemas do mundo que você critica?” (nota atualizada sobre a frase atribuída: a frase consta no livro “Presentation on Transference”, de Jacques Lacan, onde ele cita Freud e descreve a frase como sendo “Qual o seu envolvimento na desordem da qual você reclama”, pg.179 — com agradecimentos ao leitor Nelson Matheus, que trouxe a primeira confirmação).

Esse vídeo foi extraído de uma entrevista que Krishnamurti concedeu ao escritor e educador Michael Mendizza (em inglês aqui), e ele mesmo refaz a pergunta para entender o que Krishnamurti quer dizer com crise interior.  Um dos trechos da resposta que recebe não está neste vídeo, mas fala da nossa super-adaptação aos vários sistemas vigentes, que seguem inquestionados: “Quando eles oferecem sistemas e você os aceita, você está fechado, seguro, protegido, e você sente isso. E a maioria da pessoas quer se sentir protegidas psicologicamente. Mas as instituições nunca salvaram o homem, politicamente, religiosamente; elas nunca realmente libertaram o homem da sua tristeza, dor e todo o resto. Sabemos disso, mas os sistemas tem um apelo extraordinário para aqueles que não pensam”. Mais do que a ignorância, Krishnamurti cita a “preguiça” como fator que justifica a manutenção dos sistemas.

Uma das coisas que o filósofo sempre sugeria em seus discursos e palestras era que, se as pessoas tinham dúvidas, que se perguntassem, sincera e profundamente, sem se apegar a padrões de respostas já existentes, e assim chegariam a respostas verdadeiras. Podemos seguir essa sugestão agora e colocar atenção em algumas perguntas orientadas-ao-nosso-interior nesse cenário de crise atual: nós queremos que os políticos se interessem e se dediquem aos problemas e às necessidades comuns, mas será que fazemos isso quando vivemos os variados eventos da nossa rotina? Será que quando entramos em debates, por exemplo, não ajudamos a torná-lo uma discussão dividida, oferecendo resistência e defesa, ao invés de torná-lo mais inclusivo e compreensivo? Será que não estamos agindo apenas em prol de agendas individuais, com graus de segregação e ausência de fraternidade – e desejando que o mundo tenha justamente isso, para podermos então ter essas mesmas coisas em nossas vidas, de fora pra dentro? O que leva a essa expectativa? O que leva a projetar a responsabilidade sobre o outro, ou sobre um sistema? Qual minha motivação quando divido, engano, rejeito, ataco? Quem acredito que sou ou preciso ser para pensar e agir assim? Que mais perguntas podemos fazer, eu sinceramente gostaria de evoluir e aprofundar em mais questões, tomar caminhos diversos nesse tipo de questionamento — podemos fazer isso nos comentários, e eventualmente atualizo o post. Assim podemos ir ampliado e renovando, “encarando a crise”, buscando um ordem e esclarecimento interior.

“Já está provado, por mais e mais vezes, que querer ordem externa no mundo sem ordem interna só gera mais desordem”.Jiddu Krishnamurti

Segue o vídeo com legendas embutidas em português:

Krishnamurti - A Crise é Interna 




9 de abril de 2017

“Queremos ser sempre a vítima, mas somos o único responsável”:



para acordar do sonho, com Kenneth Wapnick

E se tudo que nos perturba, nos causa problemas e ansiedades na vida não fosse causado por algo externo, mas por decisões que nós mesmos tomamos?

E se tudo, absolutamente tudo, sem excessões, fosse causado por nós mesmos? Por eu mesmo? Sem nenhuma causa fundamentalmente externa? (apenas causas consoantes)

E se o que sofremos fosse consequência de nos alienarmos de nossa responsabilidade sobre o que “nos acontece”?

E se não houvesse absolutamente nenhuma possibilidade de nós sermos vítimas de nada?

Esse trecho de 10 minutos de um workshop do Dr. Kenneth Wapnick sobre os fundamentos de “Um Curso em Milagres” (UCIM), propõe uma série dessas indagações seríssimas em forma de afirmações sobre quem somos, porque estamos aqui, porque estamos enganados e o que devemos fazer com isso. Ele afirma, por exemplo, que de fato não somos vítima de nada (apesar de decidirmos e quase sempre gostarmos de ser), que de fato somos decisores que se abstém de assumir responsabilidade pela condição inteira, que de fato a realidade é um sonho projetado de um outro (ou de vários outros) ser(es) que queremos que seja(m) responsável(is), etc. São várias sentenças que são ao mesmo tempo profundamente psicológicas, da condição do ser humano, e também cosmológicas, sobre a existência humana e do universo — podem até parecer dogmáticas, mas em essência são ensinamentos e propostas de experiência e percepção. Dr Kenneth Wapnick (1942-2013) foi um dos grandes nomes de Um Curso em Milagres, fundou o Instituto da Paz Interior e foi presidente do Foundation for a Course In Miracles, nos Estados Unidos.

—> Mais sobre Um Curso em Milagres na Wikipedia.

Por afetarem a essência das crenças que a cultura humana toma por dada (seja científica ou religiosa), pela incisividade e capacidade de explicação que Kenneth apresenta, esse vídeo pode servir de semente de estrondo (interno). Ao ver o vídeo pela primeira vez, algumas frases ficaram na minha mente por alguns dias, e algumas pessoas para quem mostrei preliminarmente também relataram algum tipo de impacto. Mas é preciso proceder com atenção para não entender uma coisa por outra, já que essa visão apresentada (do UCIM) na explicação de Kenneth atravessa abordagens de Psicologia, de Espiritualidade, de Terapia, passa por releituras da visão da Bíblia, da compreensão do sofrimento humano e se aproxima de outras visões e escolas, como do próprio Budismo.

Vejamos o vídeo e depois falamos mais. Para ativar as legendas, clique o ícone “CC” de Closed Captions na parte inferior do vídeo, depois clique no ícone de Configurações (Settings) e então selecione Subtitles/CC e “Portuguese (Portugal)“. Abaixo do vídeo, alguns trechos da transcrição em português:


Alguns trechos selecionados da transcrição do vídeo acima:

— Nós ainda estamos no primeiro passo do perdão, que consiste em reverter a projecção que, basicamente, (…) implica reconhecermos que, seja o que for que nos perturba, não provém de nenhuma coisa externa, mas sim da decisão que tomámos.

— A questão principal, claro, é que o sonhador é a mente, mais especificamente, a parte tomadora de decisões da nossa mente que escolheu acreditar no ego e no seu sistema de pensamento de separação e especialismo. E é a decisão de nos identificarmos com esse sistema de pensamento que dá origem ao mundo. O mundo é, então, o sonho.

— Então, o que este primeiro passo faz é ajudar-nos a reconhecer, mais uma vez, que tudo aquilo que pensamos que nos foi feito a nós, é algo que nós fizemos a nós próprios. Nós somos os responsáveis pela nossa perda de paz. Nós somos o sonhador do sonho.

— Eu sou agora totalmente alheio ao que está a acontecer. É a parte de mim, tomadora de decisões, que é a causa disto, e eu sou agora a vítima inocente, ou o efeito, do sonho de outra pessoa. E é assim que a nossa “vida” começa. Nós somos o efeito do sonho dos nossos pais, da composição genética, das influências ambientais, etc., etc.

— Este é o sonho do mundo, que esconde e protege o sonho secreto – o facto de ser eu o único responsável. Fui eu quem se separou de Deus. Fui eu quem se proclamou a si mesmo de Deus, de forma egoísta e à Sua custa.

— Devo mencionar de novo que quando escolhemos o ego, e basicamente nos esquecemos do Espírito Santo, (Ele desapareceu depois na nossa mente) nós também silenciámos essa voz. Assim, a única voz que ouvimos sempre desde então tem sido a do ego. Há apenas duas vozes na nossa mente. Na mente dividida há apenas duas vozes. Ao termos banido o Espírito Santo, e para todos os efeitos e finalidades, O termos enterrado na mente, deixamos de ouvir essa voz. Por isso, a única voz que ouvimos é a voz do ego. E como agora essa é a única voz, isso é o mesmo que dizer que é a voz de Deus, porque é a única voz que conhecemos, ela é a voz da verdade, a verdade que o ego diz ser a verdadeira. E assim, este sonho secreto passa agora a ser algo que é real.

Nós queremos ser a vítima num corpo moribundo. Novamente, porque é que acham que a crucificação de Jesus se tornou o maior símbolo e a peça central de uma religião? O ego alimenta-se de sacrifício, de “ou um ou outro”, um ganha e o outro perde. É por isso que o terceiro capítulo do texto começa com a secção “Expiação sem sacrifício”. Porque na visão Cristã e, na verdade, na Judaica também, a Expiação envolve sacrifício. É essa a vontade de Deus. E mais uma vez, como mencionei antes, esse é o Jesus que nós amamos. Esse é o Deus que amamos. Essas são as escrituras que amamos, que reforçam o nosso próprio sistema de pensamento de especialismo, sacrifício e morte.

— Assim, nos sonhos de perdão, quando pedimos ajuda ao Espírito Santo, Ele ajuda-nos a perceber que não há vencedores nem perdedores. Assim somos todos perdedores. Mas todos nos tornamos vencedores quando percebemos que estamos todos a fazer o mesmo pedido de ajuda. Somos perdedores porque todos compartilhamos o mesmo sistema de pensamento insano. Mas somos todos vencedores porque todos temos ainda dentro de nós, na mente certa, esta centelha de luz.

—  Esta memória de quem realmente somos, que nos diz que tudo isto é um sonho. E o caminho para fora do sonho é não fazer nada
com o sonho e sim despertar dele. (…) Tudo o que precisamos é de um pouco de boa vontade. Não precisamos de fazer nada. Não precisamos de mover montanhas. Não precisamos de mudar as coisas. Não precisamos de curar ninguém. Apenas olhem com os meus olhos em vez de com os vossos. É somente isso que precisamos de fazer.





29 de dezembro de 2016

Por que parece que somos tantos? A resposta...

“No início, quando nós tivemos a “diminuta e louca idéia”, quando acreditamos que éramos separados de Deus, nossa mente separada – a mente que acreditamos que tinha se separado de Deus -, agora se divide de novo, e nós nos dividimos em dois sistemas de pensamento: o do ego e o do Espírito Santo. O sistema de pensamento do ego diz que a separação é real e, portanto, eu sou real como um ser separado. O sistema de pensamento do Espírito Santo, que é refletido no princípio da Expiação, diz que a separação nunca aconteceu, e que a pessoa que você pensa ser não existe. Você continua em casa, em Deus.

O tomador de decisões, que é a parte de nossas mentes que tem que escolher entre esses dois sistemas de pensamentos, escolheu o ego. Nesse ponto, o que ele fez foi se separar do Espírito Santo, de forma que tudo o que parece ser realidade agora é o sistema de pensamento do ego. Como já vimos, quando escolhemos o sistema de pensamento do ego, nós nos tornamos esse sistema. Um termo psicológico para descrever isso é “dissociação”, onde você se dissocia de algo: você se separa. É isso o que o mundo literalmente significa: você estava associado ao Espírito Santo e agora está dissociado – você se afastou dele (‘dis’ é um prefixo negativo). Então, a dissociação meramente quer dizer a separação, que especificamente aqui significa que nós nos separamos do Espírito Santo , portanto, esquecendo tudo sobre Ele. Aquilo em direção a que nós nos separamos, isto é, o ego, tornou-se a única realidade para nós. Então, o ego inventou toda essa grande história, que é basicamente o que nos atraiu em primeiro lugar: a idéia que o especialismo era realmente formidável, e que nós realmente seríamos felizes estando certos, enquanto Deus estaria errado. Então, seguindo o sistema de pensamento do ego em termos de sua lógica inevitável, o Amor de Deus tornou-se terrível, vingativo, raivoso e punitivo. Então, nós tivemos que escapar, e aí fizemos o mundo.

O que acontece quando nós fazemos o mundo é que nós nos separamos, basicamente, de nossas mentes. Então, em certo sentido, estamos sempre atravessando um processo de divisão. Esse processo de divisão da mente – projetando para fora, no mundo – dá vazão a todo um processo de fragmentação. A seção “A realidade substituta”, no início do Capítulo 18, explica e descreve isso claramente. O resultado desse processo de fragmentar e subdividir, e subdividir ainda outra vez, muitas e muitas vezes, é esse mundo – o que os hindus chamam de mundo da multiplicidade. Em nosso contexto, nós podemos nos referir a ele como um mundo de fragmentação e separação: o oposto exato da totalidade. E aquele Filho único de Deus que fez essa escolha, então se fragmentou em bilhões e bilhões de fragmentos. Cada um de nós, agora, é um representante de um desses fragmentos. Cada fragmento acredita que está por conta própria, e que é seu próprio universo auto-contido.

E, nesse ponto, nós parecemos desesperançadamente aprisionados, porque não existe saída, uma vez que nos encontramos aqui. Não existe saída, é isso, exceto nos lembrarmos de que não estamos aqui, e de que tudo isso aconteceu porque nós simplesmente fizemos uma escolha errada. Nós caímos em um estado de negligência, um estado de sono profundo, e a única forma de despertar desse sonho é nos lembrarmos. Isso, mais uma vez, é o que o milagre faz: ele nos lembra de que tudo isso aconteceu simplesmente porque fizemos a escolha errada. Nós escolhemos contra o Espírito Santo, contra a verdade. Nós nos dissociamos dela, e então nos identificamos com o sistema de pensamento do ego. Esse é o problema. A solução, então, é nos lembrarmos disso.

Jesus é o nome que nós damos a um desses fragmentos, uma dessas partes da Filiação que se lembrou de quem nós todos somos. Não existe nada no Curso que poderia indicar quando ele se lembrou – todos sempre querem saber quando ele fez isso. Por favor, não se voltem para a bíblia, porque os escritores da bíblia certamente não sabiam nada sobre Jesus – ao contrário, o livro não teria saído do jeito que saiu. Basicamente, você tem que ir para dentro de si mesmo, e conseguir essa resposta por conta própria. E, é claro, não importa quando ele se lembrou, porque não existe tempo de qualquer forma. Então, isso simplesmente se torna algo que você gostaria de discutir quando fica um pouco bêbado ou algo assim. Não existe nada importante nisso. Simplesmente seja grato por ele ter feito isso.

Uma vez que ele é parte da Filiação, e nós todos somos unidos como um pensamento naquela mente, então, ele permanece dentro da nossa mente como o exemplo brilhante e um lembrete de que podemos fazer o que ele fez. O que ele fez foi perceber que tudo isso era uma tolice. Quando o Curso diz que o Filho de Deus não se lembrou de rir... ele riu, porque percebeu que é simplesmente absurdo achar que poderíamos nos separar do nosso Criador e da nossa Fonte – que uma parte de Deus poderia arrancar a si mesma do Tudo e da Totalidade. Portanto, quando nos unimos a Jesus, estamos nos unindo com aquele pensamento. No Curso, ele diz: “Eu estou a cargo do processo de Expiação” (t-4.III.1:1). Em outro trecho, ele diz: “Eu sou a Expiação” (T-I.III.4:1) – porque ele é o princípio de correção. Nele encontramos a resposta, porque em sua lembrança de que nada aconteceu, ele sabia que ainda era parte de Cristo. E Cristo é perfeitamente uno, perfeitamente completo, e perfeitamente unido a Sua Fonte. Então, ao nos unirmos com Jesus, estamos nos unindo com a unicidade e, portanto, estamos nos unindo com Cristo.

É por isso que é tão importante que você se una a ele – porque ele é o símbolo do fim do sonho. Ele é o princípio da Expiação. Ele também diz, antes, no texto, que o princípio da Expiação que veio a existir no momento em que a separação pareceu acontecer (que é o que o Espírito Santo é), é basicamente geral demais, e tem que ser posto em ação (T-2.II.4?2-3). O que ele realmente quer dizer com isso é que era necessário um símbolo concreto dentro do mundo com o qual as pessoas poderiam se identificar e que poderiam reconhecer. Ele é esse símbolo. Ele deixa claro que não é o único símbolo. Ele realmente diz que é o primeiro. Mas, claramente, ele não é o único símbolo. Para nossos propósitos, uma vez que estamos estudando dentro do contexto do seu Curso, vamos falar dele como um símbolo. Mas também é importante que você perceba que ele não é o único. Mas ele foi aquele que colocou o princípio da Expiação em movimento – a frase usada no Curso (ET-6.2:4). E tudo isso realmente são metáforas para simplesmente descrever o fato de que Jesus, dentro do nosso sonho, é o símbolo do princípio da Expiação – de que separação de Deus nunca aconteceu. Se ele é o Amor de Deus, se ele é a manifestação do Amor de Deus na forma e no sonho, então, ao nos unirmos com ele e aceitarmos seu amor como verdade, o que realmente estamos fazendo é nos unirmos ao mesmo princípio que ele representa.

Então, nós nos tornamos como ele, como está expresso naquele lindo poema de Helen, Uma Oração a Jesus. Ele diz no Curso que é a manifestação do Espírito Santo. Ele então pede, em um ponto, que nós nos tornemos sua manifestação no mundo (ET-6.5:1). Então, assim como ele simbolizou para todos nós o Amor de Deus na presença do sonho, ele pede, com estudantes do seu Curso, que nós nos tornemos mais e mais como ele, para nos tornarmos símbolos dentro do sonho para outras pessoas do que significa realmente aceitar a Expiação para si mesmo. Em um sentido, você poderia dizer que esse é o único propósito do Curso: levar as pessoas a fazerem isso. Basicamente, só um é necessário, como já vimos, porque existe só um único Filho. Mas, uma vez que existe a ilusão de muitos, então, temos a ilusão de que muitas pessoas têm que fazer isso. É uma ilusão, como já vimos antes. Toda essa idéia de quantificar a salvação é uma ilusão, mas, novamente, uma vez que acreditamos estar aqui, temos essa ilusão. Então, o propósito do Curso é fazer com que mais e mais pessoas se tornem como Jesus. Embora na realidade sejamos todos apenas uma única pessoa, somos todos partes separadas dessa única pessoa.”

(SUMÁRIO de REGRAS PARA DECISÕES - Texto - Capítulo 30 - Seção I - Trechos do Workshop efetuado na Academy & Retreat Center of the Foundation for A Course in Miracles® Kenneth Wapnick, Ph.D.)


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